29.09.2009
Por Selma Santa Cruz
Sócia-diretora de Planejamento do Grupo TV1 Comunicação e Marketing
Se alguém perguntar a um grupo de cem pessoas quantas freqüentam sites pornográficos terá, provavelmente, resposta igual a zero. As estimativas, no entanto, são de que pelo menos 40% do tráfego da web circula neste território. O especialista em interpretação de dados online Bill Tancer costuma citar este exemplo para enfatizar a diferença entre o que as pessoas dizem que fazem e o que elas realmente fazem. E ilustrar como os rastros que deixamos ao navegar estão expondo comportamentos sociais como nunca antes. O que sinaliza uma dimensão importante e ainda pouco explorada da rede: o fato de ela estar se convertendo num manancial inesgotável de informações sobre hábitos e tendências de consumo. E em uma ferramenta de conhecimento para quem souber decifrar seus códigos para gerar inteligência competitiva.
Descobrir o que se passa na cabeça do consumidor sempre foi um dos pilares do marketing – apenas no ano passado, esta pergunta movimentou algo em torno de 30 bilhões de dólares. Só que, nas pesquisas tradicionais, era preciso acreditar no que as pessoas diziam. É isto que está mudando. Depois dos estudos etnográficos, em que os pesquisadores praticamente se mudam para as casas dos consumidores, para conferir de perto os seus hábitos, e das câmeras de vídeo que registram nosso comportamento nas lojas, hoje a tecnologia já permite também radiografar mentes. No chamado neuromarketing, por exemplo, recorre-se ao monitoramento de íris para avaliar como regiões do córtex cerebral reagem diante de diferentes produtos.
Agora, a Internet promete mudanças ainda mais radicais, por sua capacidade de comprovar, pelo monitoramento de hábitos , fluxos de navegação e dados objetivos, o que as pessoas realmente valorizam e fazem: os assuntos que mais pesquisam nos sites de buscas; quando, como e o que compram; quem influencia suas decisões; e por aí afora. Segundo o Global Market Research Report, divulgado há poucas semanas, as pesquisas online e a medição de audiência e tráfego já representam 10 % ou mais dos investimentos em muitos países. Mas isto, ao que tudo indica, é só o começo. Mais do que usar a web apenas para fazer perguntas, o que deve crescer é a interpretação dos dados que os internautas fornecem o tempo todo, voluntaria ou inadvertidamente - as suas pegadas digitais.
A comunidade virtual de corredores do Nike Plus é a exemplar do novo marketing. Ela não apenas transformou o produto num sucesso como criou uma base de informações sobre este nicho de mercado muito mais completa do que seria viável pelos métodos convencionais. Quanto custaria compor o perfil detalhado dos hábitos de um milhão e duzentos mil aficionados por corrida em dezenas de países? Ao criar incentivos para que os consumidores alimentem o site com seus dados para monitorar o próprio desempenho, a Nike ganhou o direito de saber quase tudo sobre como eles praticam o esporte. De modo semelhante, no ramo imobiliário, empresas com presença online ativa estão conseguindo obter informações valiosas sobre aspirações de compra, que ajudam na localização e configuração de novos lançamentos.
Ou seja, fica cada vez mais evidente aquilo que quem trabalha com estratégias digitais já percebeu há um bom tempo: a Internet não é apenas mais uma mídia, mas também um imenso focus group. E a comunicação interativa não se esgota no objetivo de engajar os consumidores com as marcas, por meio de mídias sociais, brand channels, games ou promoções. Ela traz a oportunidade de captar conhecimento para apoiar as decisões de marketing, numa espécie de ciclo virtuoso: quanto mais a empresa se comunica, mais aprende sobre os seus públicos, o que permite aprimorar continuamente a comunicação e o relacionamento. Estamos falando de algo bem diferente dos bancos de dados tradicionais. Mas de incentivar os internautas a oferecer, de boa vontade e gratuitamente ,em troca de serviços, entretenimento ou conteúdo relevante, exatamente as informações que se deseja. E de uma nova ciência dos dados, como sugerida por Tancer, autor do livro Click, e que esteve no Brasil, recentemente, numa iniciativa da Serasa Experian. Afinal, hoje em dia, nós somos cada vez mais, também, aquilo que clicamos.
f.corib@uol.com.br
Execelente o artigo de Selma Santa Cruz.
Boa síntese conjuntural sobre comunicação e tecnologia, e estratégias de marketing futuras.
Está tudo ali, as fontes de pesquisa, os exemplos, e as possibilidades de análise.
Em seu conjunto, o texto, com grande economia, mas sem perder profundidade, toca questões essenciais que, por si só, inspiram grandes matérias e teses como, por exemplo:
os rastros que deixamos ao navegar na web;
o neuromarketing, e o monitoramento da iris para avaliar como regiões do córtex cerebral reagem.
Por fim, como ressalta a autora, “a internet não é apenas mais uma mídia, mas, também, um imenso focus group”.
Assim, como denota e conota o artigo, há muita energia positiva no ar, grandes possibilidades de troca de conhecimentos, e excelentes oportunidades de négócios.