6.07.2009
Por Selma Santa Cruz
Sócia-diretora de Planejamento do Grupo TV1 Comunicação e Marketing
06/07/09
Poucos episódios serão tão emblemáticos da natureza revolucionária da Internet do que a cena da morte da iraniana Neda, gravada por uma câmera de celular, multiplicando-se como num rastilho pelo mundo digital. Mais do que romper a censura dos aiatolás, ele mostrou o que acontece quando o poder da imagem se soma ao das redes sociais , numa combinação que dá novo alcance ao que vimos até agora como viralização. Em um único dia, só o You Tube recebeu 3 mil vídeos dos protestos no Irã, e o Twitter bateu recorde de “twits por segundo” sobre o assunto. Pouco depois, foi o drama de Michael Jackson que reverberou na blogosfera, numa explosão de imagens e bits cheia de simbolismo para um ícone pop. Nos 2 casos, muito à frente dos canais de notícias tradicionais, coube à rede, pela primeira vez, ser o pólo irradiador da comoção que tomou conta do mundo - um momento expressivo da ascensão da Web e de sua capacidade de transformação.
Não por acaso, na mesma semana, também Cannes pareceu se render de vez ao digital. Em retrospecto, esta edição talvez seja vista como um divisor de águas: o ano em que a Internet deixou se ser tratada como mídia periférica para ganhar o centro do palco. O que já não era sem tempo. Com mais de um bilhão de conectados no mundo e cada vez mais gente passando mais tempo na frente do computador do que da TV - no caso dos brasileiros, exatamente 3 vezes mais - ficou claro que a força da Internet não está apenas na segmentação e na interação. Com sua penetrabilidade crescendo exponencialmente, ela agora disputa também o status de mídia massiva.
Já existe até quem preveja a data exata em que a Web vai superar a TV como mídia mais popular: segundo projeção do especialista em marketing viral Jimmy Maymann, daqui a exatamente um ano. Se, no ano passado, o consumo médio de televisão no mundo foi de 46 horas mensais por pessoa , contra 40 da web, a estimativa é que a Internet avance para algo entre 50 e 60 horas mensais, enquanto a TV tenderia a estacionar no patamar atual. No Brasil, o crescimento de 25% da mídia online no primeiro quadrimestre, frente à expansão de 2,6% do investimento total nos meios, prova que, também por aqui, a indústria de Internet amadurece a passos rápidos. Mas o foco nos números talvez tenha importância relativa. Bem mais proveitoso seria tentar antecipar o que desponta, depois do fenômeno das redes sociais, como a próxima onda da Web , e como o marketing poderá se beneficiar dela. O que, para os mais pragmáticos, significa especular sobre o contexto de Cannes nos próximos anos.
Uma das tendências poderosas é a chamada Web semântica, que promete tornar a rede muito mais amigável, com ferramentas de busca e navegação mais inteligentes. Mas tudo indica que a nova fronteira do marketing online estará no vídeo – por sinal um dos fatores chave do crescimento recente da Web. Vale lembrar que, não faz muito tempo, a interatividade se limitava à relação do usuário com sites estáticos, carregados de textos. A Web 2.0 representou um salto ao permitir a geração e o compartilhamento de conteúdos, e sobretudo a multiplicação de arquivos multimídia. Mas os vídeos que assistimos no computador até agora ainda são mera transposição do formato consagrado na TV ou produto amadorístico de videobloggers. Dá para imaginar a revolução que trará o vídeo totalmente nativo da web? Estes videowebs da nova geração não serão simplesmente assistidos, de forma passiva, mas permitirão novas e surpreendentes formas de interação. E mais: ao explorar tecnologias e linguagens narrativas ainda em gestação, permitirão uma dimensão totalmente inédita de imersão sensorial no ambiente da imagem.
Os avanços em largura de banda, capacidade de armazenagem de dados e mobilidade, com a disseminação dos smartphones, já estão provocando uma escalada na produção e consumo de vídeos online. Os uploads no You Tube, por exemplo, cresceram 400% apenas nos primeiros dias após o lançamento do IPhone 3GS. O próximo passo é o que vai além da quantidade para mudar radicalmente a qualidade da experiência – e o significado daquilo que entendemos até agora por vídeo.