3.12.2008
Selma Santa Cruz
Sócia-diretora de Planejamento do Grupo TV1 Comunicação e Marketing
Às vezes, surge a tentação de fazer coro com quem anda desejando um feliz 2010, para deletar, ao menos mentalmente, o ano assombroso que chega. Mas vale acreditar que a crise, embora dolorosa, poderá deixar um saldo positivo, se nos obrigar a descartar velhas formas de ser e fazer, para dar uma chance ao novo.
Não se trata de ignorar seu custo humano os milhões de empregos perdidos, vidas e sonhos esfacelados. Ou a responsabilidade dos que orquestraram o cassino global e seu colapso. Mas pode-se especular, como Alvin Toffler, um dos mais sagazes analistas destes tempos, que o choque talvez se revele um marco histórico: o momento de guinada para modelos mais evoluídos de se criar e distribuir riquezas, de forma mais racional, igualitária e sustentável.
A dificuldade, afinal, tem sido a mãe da inovação. O self-service, por exemplo, surgiu dos apuros da Grande Depressão dos anos 30.
A crise atual obrigará as empresas a inovar em busca de mais eficiência. E talvez acelere nossa libertação do gerúndio angustiante em que vivemos desde o final dos anos 80, aprisionados num ciclo onde tudo está sempre mudando, esperando um futuro que parecia nunca chegar.
Sabemos que as novas realidades criadas pela tecnologia tornaram obsoletas as estruturas mentais e sociais que conhecemos: o modelo da economia industrial fordista, os meios de comunicação de massa, os métodos educacionais, as formas de organização política, e até os valores que regem nossas relações . Mas ainda não aprendemos a navegar neste novo ambiente. Alguns se descobrem sem chão, agora que não há mais regras garantidas de sucesso, nem consenso sobre o que é sucesso. Outros se apegam, de forma quase autista, às certezas do passado. 2009 talvez seja o ano dos que estão dispostos a se desafiar e correr riscos para construir novos caminhos- nas empresas, no mercado, e até na vida pessoal. O consolo é que profissionais e empresas brasileiras talvez tenham diferenciais para tentar sair da crise melhor do que entramos.
Nosso DNA mestiço, que nos fez mais comunicativos do que outros povos , também nos tornaria mais criativos e propensos à inovação. Pelo menos é o que acreditam alguns pensadores interessantes que têm nos visitado com freqüência, como Henry Mintzberg, o professor e consultor canadense especialista em estratégia. “Quando olho para o mundo em busca de mudanças, o Brasil aparece em primeiro lugar ”, contou ele, recentemente, impressionado com nossos avanços em biocombustiveis, o sucesso das políticas contra a Aids e a engenhosidade social de algumas Ongs.
Embora estejamos na rabeira da inovação tecnológica, seríamos um destaque em inovação social – para Mintzberg, a mais crucial hoje.
O sociólogo italiano Domenico de Masi é outro entusiasta na mesma linha. Ele acredita que, graças à inventidade, os brasileiros estariam mais aptos a desenhar novos modelos de organização empresarial, menos centrados na competição irracional e mais voltados à colaboração produtiva. Esta é também a opinião do designer e especialista em marcas Marc Gobé, com quem o Grupo TV1 acaba de firmar uma aliança estratégica. Gobé, que tem viajado o mundo em busca de referências de inovação, considera o Brasil um berço de criatividade, pela diversidade e capacidade comunicativa.
O que interessa destacar é a relação direta que estabelecem entre comunicação e inovação. Embora óbvia, ela não costuma ser levada em conta quando se tomam decisões em tempos de crise. Já virou chavão, nestas horas, defender os investimentos em comunicação mercadológica para garantir share e sustentar a marca. Mas é freqüente cortar-se programas de Comunicação Interna, a partir de uma visão ultrapassada, que confundia esta dimensão com informar as bases, por meio de murais ou house-organs irrelevantes.
Quem pensa assim ficou preso no passado. Não se deu conta do papel cada vez mais estratégico da Comunicação Interna, num mundo em que o conhecimento tornou-se a única vantagem competitiva sustentável. Pautada no diálogo, na transparência e no alinhamento ao negócio, ela poderá ser a chave para pensar fora da caixa e crescer na recessão. Afinal, é o circuito nervoso que permite à empresa interpretar as informações do meio, integrar pessoas e competências, para transformá-las em valor de forma sistêmica.
Tão importante, portanto, quanto um chip para o computador. Quem sabe a crise dê, afinal, uma chance para este novo olhar.